terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Chapada Diamantina - Parte IV



Travessia da Fumaça + Vale do Capão.


    Quarta parte da aventura solo pela Chapada Diamantina, realizada entre os dias 7 de janeiro e 10 de fevereiro de 2011. A navegação pelas trilhas foi feita utilizando apenas o mapa “trilhas e caminhos” e bússola.


Dia 22: Travessia da Fumaça - Avante pela traiçoeira Serra do Veneno


     Pela manhã o dia estava bem agradável, com sol tímido entre as nuvens e o vento leve arrastando algumas folhas pelo chão, enquanto sanhaços se fartavam com deliciosas mangas que caíram do pé durante a noite. Enquanto eu fazia meu café, chegou uma família enorme no camping, trazendo cachorro papagaio o que mais tinha direito. O som do vento e da água do rio Lençóis foi substituído por gritaria e caos, mas tudo bem, eu que estava no lugar errado. Desmontei a barraca, arrumei mochila e fui em direção ao centro pra fazer as compras finais. Durante a caminhada pelas ruelas, fitava os ornamentos das casas e me despedia daquela bela cidade.

     Depois de tudo pronto, segui em direção ao Ribeirão do Meio pela mesma trilha que usei quando fui a cachoeira do Sossego. No caminho, passei por um quiosque e peguei algumas dicas. Deveria atravessar o Ribeirão em algum ponto e iniciar a subida da famosa Serra do Veneno. Essa parte é muito confusa e não é muito claro onde se atravessa, muito menos onde inicia a trilha. Atravessei onde dava, acima da “Rala bunda” e então comecei a investigar as trilhas. Existia mais de uma, e muitas vezes são imperceptíveis devido à lajes de pedra. Provavelmente não era o início “tradicional”, mas não podia perder o muito tempo procurando. Meio desconfiado, segui atentamente por aquelas lajes, sempre subindo. A trilha estava sutíl demais pra ser a principal, mas o que importava era que estava na direção correta.


Quiosque.

     A subida da Serra do Veneno é forte, mas nada demais comparado ao que já tinha passado até ali, inclusive, achei a Serra do Bode pior. Após aproximadamente 40mim de subida, a inclinação diminui e ficou mais suave. No topo, a trilha passa por um trecho de altas samambaias e de capim gordura bem vistoso, pouco antes de entrar numa mata, já descendo em direção ao rio Muriçoca. Passei por uma pequena toca, que fica a esquerda da trilha, e logo a frente já era o rio.

     No rio Muriçoca fiz uma parada para lanche, foi bem rápido, pois o rio faz jus a seu nome. Fui incomodado por centenas de muriçocas, que não me deixaram em paz nem um segundo. Seguindo em frente, subi um pouco para sair da margem do rio e da mata, ladiei uma encosta pela esquerda e cheguei ao mirante da Toca da Onça.


Rio Muriçoca.
    A visão que se tem desse mirante é incrível, dá pra ver boa parte da região do Marimbus, o rio Capivarí até a cachoeira homônima, e parte do canyon do rio Capivara. O fato de você ficar a sobra e estar ventando faz tudo ficar melhor, eu ficaria ali por horas, só curtindo e apreciando aquela bela paisagem. Mas, infelizmente, já passava das 12h e tinha que seguir caminho. 


Cachoeira Capivarí e encontro do rio homônimo com o rio Capivara.
    A partir desse ponto desci ligeiramente pela encosta já na lateral do canyon do Capivara. Nessa parte passei pelo único trecho que apresenta alguma dificuldade, trata-se de uma pequena parede de pedra, de aproximadamente 3m, embora seja cheia de fendas e lugares pra segurar, deve-se descer com cuidado pra não perder o equilíbrio com a cargueira. Em grupos, o ideal seria descer mochila e pessoas separadamente, que facilitaria bastante.

Deve-se descer com cuidado.

     Pouco antes de chegar ao camping da Palmital, a trilha sobe um pouco e logo desce para o rio. Cheguei na área de camping as 12:50h, deixei a mochila por lá e fui até a cachoeira do Palmital, que fica bem próximo, uns 3mim subindo o rio. Depois de algumas fotos, desci, peguei a mochila e continuei a trilha, em direção a cachoeira do Capivara. A trilha inicia a direita do rio Palmital. Esse trecho é uma descida bem íngreme até o rio no fundo do canyon. Em menos de 40 mim já estava na cachoeira Capivara.


Cachoeira do Palmital.

     No poção da cachoeira encontrei um rapaz (não lembro o nome), enquanto batia algumas fotos ele me contou a sua “saga”. Ele tinha saído de Lençóis acompanhado de um casal, mas tinham se perdido na serra do Veneno por dois dias, com isso o casal desistiu, mas como ele estava determinado, continuou, e esse já era o quarto dia da sua travessia. Ele iria acampar por ali mesmo, mas eu ainda pretendia adiantar mais um trecho, sendo assim, me despedi e segui em frente.

Cachoeira Capivara.

     A trilha continua pela direita, passa pela área de camping da Capivara e segue subindo o rio. Essa parte é tranqüila, e as 15:20h cheguei na Toca do Macaco. Na toca tinha alguns equipamentos, sinal que tinha alguém na cachoeira da Fumaça. E pelo horário, iriam passar a noite na toca. Ainda era muito cedo, daria tempo de ir na Fumaça, mas não valeria muito a pena, por ser no finzinho da tarde. Fiquei por lá, montando a barraca e arrumando minhas coisas tranquilamente.

     No fim da tarde as pessoas apareceram, eram dois grupos, um de apenas duas pessoas (um guia local e um estrangeiro) e outro com três estrangeiros mais um guia de Salvador. Os estrangeiros estavam reclamando do guia de Salvador, que parecia ser muito arrogante. Já o guia local, era mais educado, embora não falasse inglês.
 
     Algo que me chocou, foi o guia local cortando uma árvore pra usar como lenha. Não sei ao certo se a árvore já estava caída, pois vi de longe, mas tive a impressão que não.


Barraca montada na Toca do Macaco.

     Durante a noite o guia local fez uma macarronada ao molho vermelho, com direito a azeite, queijo e a molho shoyo, como havia feito em excesso, me convidou para comer também. Dormi em minha barraca, enquanto todos os outros dormiram sobre as pedras usando saco de dormir. Felizmente o tempo ficou estável durante a noite.


Dia 23: Final da travessia da Fumaça e chegada ao Vale do Capão.

     Pela manhã, o guia fez salada de fruta com granola e mel, mas uma vez me beneficiei da generosidade. Quero deixar bem claro que nunca na vida comi tão bem no meio do mato, as duas refeições estavam extremamente bem feitas e deliciosas, hauahauah.

     Após tomar o café da manhã, desmontei a barraca e comecei a arrumar a mochila. Quanto estava terminando, os dois grupos saíram, pegando a trilha para a parte alta da cachoeira. Escondi a mochila entre as pedras no fundo da toca e segui em direção a cachoeira da Fumaça. Saí da toca as 8h, o início da trilha é menos claro, mas depois fica muito bem marcado. A trilha alterna entre lajes de pedra, emaranhado de raízes e locais de terra batida. Essa diversidade do terreno enriqueceu muito a caminhada, a tornando muito agradável. O desnível é baixo, e enquanto andava já podia vislumbrar o início da queda. 


Trecho da trilha para a Fumaça.


    As 9h eu estava na beira do poção, aos pés da segunda maior cachoeira do Brasil. Só estando lá para sentir o quão imponente são aqueles paredões. O início da queda é tão distante que parece que o próprio céu está derramando. Fiquei algum tempo por lá, e então voltei até a toca.


Cachoeira da Fumaça vista de baixo.


    Chegando na toca peguei minha mochila, e pouco antes de sair o rapaz do dia anterior apareceu, dei algumas dicas pra ele e segui em frente.

     O início da subida do macaco é um pouco delicada, e deve-se subir com cautela. Enquanto se ganha altitude, tem-se uma bela visão da outra vertente do canyon, o vale do rio Capivara. É um lugar quase inexplorado, de onde ecoa os sons estridente das arapongas. Mais acima cheguei ao rio que desce no morro do Macaco, e as 12:30h parei para fazer um lanche e descansar um pouco.

Vale do rio Capivara.

     A partir desse ponto tive um pequeno contra tempo, pois existem algumas trilhas batidas e erradas, acabei pegando uma delas que me fez subir para o lado errado. Com isso, cheguei ao topo da serra e não encontrei trilhas satisfatórias, apenas rastros duvidosos. Gastei algum tempo procurando, mas resolvi descer novamente. De volta a trilha correta, segui subindo a serra. Chegando ao topo da serra a trilha fica muito tranqüila, e as 13:50h cheguei a parte alta da cachoeira da Fumaça.

     No topo, um visual incrível, dá pra ver todo o gigantesco canyon, e sentir aquele frio na barriga ao chegar bem na beirada e olhar pra baixo, enquanto o vento ecoa em seu ouvido. A sensação de liberdade é tanta, que parece que é possível voar. Também é relaxante ver a água caindo, tão distante, que é como se fosse em câmera lenta. No poço da cachoeira tinha algumas pessoas, mas lá de cima pareciam pequenas formigas boiando na água. Fiquei um tempo por lá, tirei algumas fotos no mirante e fui andando pelo rio até bem próximo da queda. Encontrei novamente os dois grupos, eles já estavam saindo..

Canyon visto do topo da Fumaça.
Mirante, no topo da Fumaça.
Cachoeira da Fumaça, vista de cima.

     Pouco após as 15h, peguei a trilha para o Vale do Capão. A trilha é quase uma BR, larga e muito movimentada. Andei cerca de meia hora no plano, antes de começar a descer. Nesse ponto pode se avistar todo o Vale do Capão, o inicio das Gerais dos Vieiras e o Morro Branco.  A descida é bem desgastante, principalmente na parte mais íngreme. Enquanto descia fiquei contemplando a bela visão do Morrão, ao norte.


Trilha da Fumaça por cima.

     Por voltar das 16:30h cheguei ao pé da serra, numa pequena ruela que se formou na saída da trilha. Estava muito quente, e fui atraído por uma pequena placa que dizia “açaí”. Após me fartar, resolvi experimentar o famoso suco de tamarindo (vide chaves), que achei muito bom. Após esse momento sublime, refrescante e hidratante, continuei o caminho para a vila. Quase chegando, passei por dois campings. Um era um simples fundo de quintal, e praticamente não tinha estrutura, o outro, logo ao lado, era bem interessante, mas não gostei muito do preço.


    Chegando na vila, me recomendaram o camping do sr Dái, que fica a 10mim pela estrada que da acesso ao Vale do Pati. Chegando lá, achei um bom lugar e o preço era bom (R$ 7), acabei ficando. O sr Dai é um antigo garimpeiro da região, e conhece muito bem aquelas serras. Foi com ele que peguei preciosas informações, como o nome das tocas na região do rio Piçarras, inclusive, ele morou durante alguns anos na toca do Jaílton.

Instalado no camping do Sr Dái.


Dia 24: Poço Angélica e cachoeira da Purificação.


     Nesse dia fiz um passeio leve, fui até a cachoeira da Purificação e ao poço Angélica. As trilhas são simples e não tem muito segredo, basta seguir a estrada em direção ao vale do Pati até o fim (cerca de 6km a partir do camping), cruzar o riacho e pegar a trilha a direita na placa informativa. Depois disso, segue-se por uma trilha até o poço Angélica. O posso era grande o suficiente para nadar, mas a água estava muito gelada e turva. A trilha para a Purificação continua pela esquerda. Deve-se ficar atento pois é necessário trocar de lado da margem algumas vezes.

Águas turvas no Poço Angélica

     A cachoeira da Purificação tem a queda e o poço bem modestos, mas é um lugar agradável. Foi nessa hora que notei que os rasgos da minha bota tinham aumentado, além de ter surgido outros. Era questão de tempo até ela desintegrar completamente.


Cachoeira da Purificação.

     Depois disso, fui até a vila, fiz compras e passei o resto do dia no camping conversando com o pessoal e planejando o dia seguinte.


Dia 25: Morrão e Águas Claras.

     Quando eu desci da Fumaça por cima fiquei encantado com o Morrão, e esse dia eu decidi ir conhecê-lo. Para chegar até lá são cerca de 2:30h caminhada. E um pouco mais a frente chega-se em Águas Claras, no entanto, a trilha se bifurca antes do Morrão. Minha idéia era apertar o passo e conhecer os dois lugares de uma vez.

     Saí do camping por volta das 9h, passei na padaria da vila para tomar café e comprar o lanche da caminhada. Para ir ao Morrão, deve-se pegar a estrada sentido Palmeiras, e tomar uma trilha que inicia em um campinho de futebol, logo após a encruzilhada para a trilha da parte alta da Fumaça. Após descobrir isso e seguir por esse caminho, cheguei numa estradinha paralela a serra. No início da estrada passa-se por algumas chácaras, até cruzar um riacho. Após esse trecho inicia-se uma subida suave, no fim da subida volta-se a avistar o Morrão.  

Morrão visto da estrada.
Morrão, já bem próximo.

     Nas bifurcações que encontrei pelo caminho, tomei sempre a direita, e no fim da estrada cheguei a uma casinha velha, com uma cerca ao redor. Não vi ninguém na casa, mas existia uma horta bem cuidada nos fundos. Não vi sinal da trilha continuar, então resolvi atravessar a cerca e procurar do outro lado da casa. Fiquei um tanto receoso por entrar no quintal dos outros assim, mas havia chamado e ninguém apareceu. Andei ao redor da casa e nada, voltei para fora da cerca. Olhando bem, encontrei um trilha tímida subindo acompanhando a cerca por fora, segui subindo em um dado ponto a trilha quebrou a esquerda e adentrou na mata. Continuei a diante por alguns minutos e logo encontrei uma trilha mais batida. Um pouco mais a frente cruzei um pequeno riacho e passei por um trecho que a trilha sumiu, pois o solo era arenoso. Mantive o mesmo sentido, até chegar uma pequena mata ciliar. Procurei um bom ponto para atravessar o riacho e assim encontrei a trilha principal. Após a mata já me deparei com o Morrão bem a minha frente, rodeado apenas por pastos. Segui pela sua direita até ultrapassar todo seu comprimento, após essa parte a trilha desce ligeiramente a direita, chegando, por fim, em Águas Claras.



     Águas Claras é um lugar que como o próprio nome já diz, as águas são claras, diferentemente da maioria dos outros lugares da chapada, onde a águas são “cor de coca cola”. O local é bem aberto, possui alguns poços para banho mas nenhuma cachoeira. Lá também não possui árvores de grande porte, apenas arbustos, e poucos. Pra quem gosta de sombra e água fresca, ficou devendo a sombra. Haviam cerca de 10 pessoas no local, e todas estavam nuas. Apesar disso, como nas demais cachoeiras, eu não tirei nem a camisa pra entrar na água, huahauahaua.

Águas Claras, poço principal.

    Depois de lanchar e nadar no poço principal fui em direção ao Morrão. A princípio iria contorná-lo pela direita, mas depois achei melhor ir por onde eu tinha certeza que era o caminho, contornando pela esquerda. Voltei um trecho pela trilha, e para não dar uma volta muito grande, comecei a contorná-lo bem próximo aos paredões. No início era apenas capim, mas como sempre, as coisas foram complicando, a vegetação ficou mais alta e surgiram pedras e pequenas fendas. Nada demais, mas também não tão trivial quanto uma trilha comum.

Contornando o Morrão.

     Cheguei na trilha principal já na metade da subida final, essa ultima parte é muito íngreme, quase uma pequena escalada. Vencendo essa parte, chega-se sobre o Morrão, mas não no topo. Na verdade, o topo tem formato de uma “sela”, ou seja, tem um pequeno vale no centro, sendo as duas pontas mais altas. Para ver tudo, tanto ao norte quanto o sul, tem que subir nas duas. Primeiro subi na cabeça norte, de onde se avista o morro “Cara Suja” e o vale em direção ao Pai Inácio, além da Águas claras. 


Trilha para o Morrão, trecho final.


Vista ao norte. Morro Cara Suja à esquerda.


Região de Águas Claras ao fundo.


    Após algumas fotos, desci para o vale e então subir a cabeça sul. Minha água tinha acabado, e eu estava morrendo de sede. Resolvi dar uma investigada por lá, acabei encontrando uma pequena nascente, que apesar da pouca água, foi suficiente pra matar a sede, é lógico que fiz uso de alguma paciência. Já em seguida, subi na cabeça sul. Lá de cima é possível ver o início do vale do capão, a serra da Chapada e a serra do Candoba bem ao fundo. Sentei a sobra de uma pedra, fiz um lanche e fiquei observando a paisagem por um tempo.

Visual ao sul. Inicio do Vale do Capão no centro.
Diversidade de bromélias no topo do Morrão.
    Por volta das 16h comecei a descer, enquanto descia a parte mais crítica, fiquei pensando o quão complicado ficaria caso estivesse chovendo, felizmente o dia foi ensolarado. Na volta foi mais tranqüilo, pois peguei a trilha principal o tempo todo. Cheguei ao Capão por volta das 17:40h.




Dia 26: Cachoeiras das Rodas, Rio Preto e Poço do Gavião.


     Nesse dia a intenção era visitar as cachoeiras Rodas e Rio Preto, além do Poço do Gavião. Mas visitar todos em um dia só não é nada viável. São trilhas distintas, e segundo me diziam, para chegar ao Poço do Gavião levava cerca de 2:30 hr. Durante a noite anterior, havia conversado com um cara que freqüenta a região há vários anos. Perguntei se existia alguma trilha que ligava a cachoeira do Rio Preto ao Poço do Gavião, ele disse que não, mas que existia um caminho que eu podia tentar. Bem, se existia a possibilidade, eu devia tentar, afinal, nada como um desafio para apimentar o dia!

     Já era quase 9h quando saí do camping, passei na padaria e segui em direção a Rodas. Essa cachoeira é a mais próxima e de fácil acesso. Apesar disso, não é tão simples chegar, existem várias bifurcações, e deve-se tomar nota antes de ir. Eu mesmo acabei chegando a Cachoeira do Rio Preto antes da Rodas, peguei o caminho errado. A cachoeira do Rio Preto é bem modesta, no entanto, tem um excelente poço. Fiquei um bom tempo por lá antes de voltar até a Rodas. A região da Rodas é cheia de lajeados e pequenos poços, bom local pra passar o dia.

Cachoeira do Rio Preto.
Poção no Rio Preto.

     Após visitar as duas cachoeiras, fui a procura do caminho para o poço do Gavião. O primeiro passo era chegar até a ponte velha, em algum ponto acima da cachoeira do Rio Preto. No caminho tinha pequenas trilhas secundárias, acabei sendo atraído por elas na esperança de me levarem até o alto da serra. Não deu muito certo, essas trilhas não levaram a lugar algum, sempre desapareciam em algum ponto. Com isso o tempo foi passando, e já era 14h da tarde quando cheguei a ponte velha.

     Atravessei o rio e comecei a subir a serra do outro lado, a oeste, praticamente em direção contrária ao poço, esse caminho dá uma boa volta. Depois de subir esse trecho íngreme, cheguei a uma estradinha, então comecei a descer ao sul até chegar a uma pequena fazenda, onde fui recebido por cães latindo. Por sorte o caseiro estava lá, e acalmou os cães. Conversei um pouco com ele, e acabei ganhando algumas mangas. Depois de guardar as frutas na minha mochila, desci em direção ao rio e o atravessei.  Agora estava próximo, só precisava subir a serra do Candoba até o poço do Gavião. Isso foi muito simples, apenas subi pelo rio, e em 50 mim cheguei ao poço, rá!

Poço do Gavião.


    Cheguei ao poço por volta das 15:45h, lá encontrei dois rapazes lá do camping do sr Dái. Estava faminto, aproveitei pra devorar as mangas que havia ganhado. Usei o resto da tarde para nadar no enorme poço. O poço do Gavião é, sem dúvida, um dos lugares mais agradáveis do Vale do Capão. Ótimo para passar o dia relaxando.



     No finzinho da tarde pegamos a trilha tradicional em direção ao Capão. A trilha inicia-se subindo a serra, depois segue pela crista até o Bico do Gavião, que é uma pedra pontuda na horizontal, lembrando um bico. Lá paramos para ver o pôr do sol e bater algumas fotos do vale e do Morrão, que é possível ver perfeitamente. As 18h, descemos a serra, chegando ao camping já durante a noite.

Trilha tradicional do poço Gavião, sentido Capão. Morrão no centro.
Bico do Gavião.


Dia 27: Palmeiras e Cachoeira do Riachinho.


     Esse seria o meu último dia no Capão, tinha que pagar o camping e fazer compras para a próxima travessia. Porém, estava com pouco dinheiro. O lugar mais próximo para sacar pelo Banco do Brasil é a cidade de Palmeiras.

     Ainda era cedo, umas 9h, então tentei conseguir carona. Fiquei lá cerca de 1h, e nada. Acabei pagando R$5 para ir numa caminhonete. Na verdade, saquei pela lotérica. Por sorte, logo em seguida já tinha uma van para o Capão.

     Como já tinha cumprido meu principal objetivo do dia, resolvi passar a tarde na Cachoeira do Riachinho. Ela fica a beira da estrada, entre o Capão e Palmeiras. Pedi ao motorista pra deixar lá, e em 3 mim já estava no poço. O lugar é legal e tem um lajeado bem ao lado da cachoeira, ideal para descansar e tirar um cochilo.

Cachoeira do Riachinho.

     Fiquei por lá até as 16h, depois fui para estrada na tentativa de uma carona. Fiquei lá cerca de 20mim e já consegui. Chegando no Capão, fiz as compras para a próxima travessia, que seria a última da viagem.

Antonio Junior

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Travessia do Canyon do Travessão, ponta-a-ponta.

      O canyon do Travessão está localizado no Parque Nacional da Serra do Cipó. Trata-se de uma enorme “fenda” que rasga a Serra do Espinhaço na direção leste-oeste. Na mediana do canyon existe uma porção mais alta, que é o divisor natural das bacias dos rios São Francisco e Doce. Como nesse ponto é possível atravessar o canyon na direção norte-sul, ficou conhecido como Travessão, explicando assim a origem do nome do canyon. O acesso ao Travessão é relativamente simples, através de uma trilha de cerca de 9km a partir do alto da serra. No entanto, cruzar toda a extensão do canyon é tarefa árdua e perigosa, como será relatado a seguir.

Esboço grosseiro da travessia, (meramente ilustrativo)

      Na quarta feira, após todos os preparativos, fui para a rodoviária, chegando lá por volta de 16h. Nunca tive problema em comprar passagens, mesmo em feriados, no entanto, dessa vez me assustei com o tamanho da fila na guichê da Saritur, achei que não conseguiria passagens para aquele dia. No meio daquela confusão toda, demorei pra perceber que a fila da viação Serro estava pequena, e quando fui ver os horários, o próximo sairia as 20:15h. Bem, o objetivo era chegar na serra naquele dia, não importava o horário. Para não correr o risco de perder ônibus devido ao trânsito e alguma eventualidade caso voltasse em casa, fiquei por lá mesmo.

      Cheguei na Serra do Cipó as  23h, as ruelas estavam desertas e não tinha ninguém pra eu pedir qualquer informação. Meio intuitivamente fui a procura da portaria do parque, era lua cheia e dava pra ver a silhueta do canyon ao longe, então segui as ruas naquela direção. Naquela região tem casas e pousadas com grandes quintais cheios de cachorros que não hesitam em latir, e foi em frente uma dessas casas que encontrei uma pequena placa indicando a portaria. Seguindo essa estrada, passei por um loteamento que não tinha nenhuma casa ou cachorro, como já era quase meia noite, acampei por ali mesmo.

Dia 1: De Cardeal Mota até o Travessão.

     Como queria cruzar a portaria o mais cedo possível, levantei as 6:00h, arrumei tudo e segui para o parque, deixando para tomar café mais tarde. As 7h cruzei a portaria, e um pouco mais a frente, parei pra tomar café.

Início da trilha, após a portaria do parque.

Esse primeiro trecho é bem tranqüilo, a trilha é muito batida já que muitas pessoas passam por lá. A direita tem-se a cabeceira da serra das Bandeirinhas, e em seguida, a da Farofa. Pela trilha encontrei um besouro rinoceronte, que é famoso por ser considerado um dos animais mais fortes do mundo, podendo carregar até 850 vezes o seu peso.

Besouro Rinoceronte.

      As 8:50h cheguei na cachoeira do Gavião, que é última queda do rio Congonhas. Seguindo adiante, a trilha fica mais fechada, passando por uma moita de samambaias e capim gordura. No caminho tem uma pequena cachoeirinha na lateral esquerda, onde saí da trilha alguns metros para bater algumas fotos. Ao fim da trilha, chega-se a bela cachoeira do Tombador, que possui dois excelentes poços. A esquerda da cachoeira é um paredão totalmente vertical, já a direita é mais inclinado, e é por aí que eu seguiria.

Cachoeira do Gavião.
Cachoerinha.
Cachoeira do Tombador, "ponto final" da trilha.

      Atenção: a partir desse ponto o grau de dificuldade é altíssimo, e não é recomendado para iniciantes ou inexperientes em trilhas em mato fechado.

      Após um lanche, dei início a etapa mais difícil do dia, que é totalmente sem trilhas, no mais puro vara-mato. Depois de escalaminhar o paredão, pode-se observar o canyon até a garganta do travessão. Entre pedras e arbustos segui pela lateral até chegar ao topo da cachoeira, de onde tem se a visão dos dois belos poções da Tombador.

      Agora era seguir alternando entre margem e pula-pedra. Eu estava usando uma bota com solado novo, e não estava familiarizado com “grip”. Na primeira pedra molhada que pisei já escorreguei, e enquanto a perna entrava rio a dentro, a canela foi com tudo numa quina de pedra. Doeu demais, vi até estrelas, e olha que eu pisei com cuidado, mas não esperava tão pouco atrito assim. Fiquei algum tempo sentado, esperando estabilizar a dor, depois segui em frente (ps: minha canela ficou mais de um mês dolorida, hahahaha). Depois do ocorrido fiquei esperto com a bota, que apesar de estar comportando bem em terreno seco, se mostrou nada confiável em pedra molhada.

Destino.

Ataque a cachoeira Fantasminha.

      Continuei subindo o rio até avistar a cachoeira Fantasminha. A princípio, minha intenção era atacar a apenas a Fantasma, mas resolvi ir a procura dessa também. Deixei a cargueira no leito do rio e adentrei a mata na margem do rio. Após atravessá-la, cheguei a um matagal da minha altura. Enquanto dobrava o mato no braço, pude ver uma cobra verde bem a minha frente, ela estava com a cabeça escondida entre algumas folhas e tinha cerca de 70 cm. Bati o pé no chão e ela imediatamente subiu na vegetação, ficando praticamente na minha altura, porém “apontada” para direção contrária de onde eu estava. Mexi mais um pouco, e então ela se virou e ficou me encarando, por ela estar um pouco longe, não consegui tirar uma boa foto. Como ela já tava de olho em mim, a deixei em paz e segui adiante. 

Cobra verde.

      Ao meio dia, cheguei na base da Fantasminha, e ao mesmo tempo em que apreciava a bela queda, também já procurava uma forma de subir para o “andar” de cima.  Com uma certa dificuldade escalei a lateral, chegando então a cachoeira seguinte, chamada “Cachoeira de Deus”. Essas cachoeiras podem ser consideradas cachoeiras “selvagens”, já que não existem trilhas até elas e seu acesso é feito via vara-mato. Além disso, não vi rastros ou sinais de que alguém tenha as visitado recentemente.

Cachoeira Fantasminha.
Cachoeira "De Deus"
Belo poço da cachoeira de Deus.

      Não fiquei muito tempo por lá, já que ainda tinha muita coisa pela frente. Voltei ao rio e segui subindo, até chegar a um descampado bem próximo à “garganta do travessão”. Novamente deixei a mochila à sombra e proferi um ataque a cachoeira Fantasma. Achei que seria fácil, e andaria a maior parte do tempo sobre vegetação rasteira, no entanto a vegetação era alta e fechada, o que me fez seguir lentamente e sem visibilidade. O tempo todo eu fiquei com a impressão que existia um caminho mais fácil, mas por estar imerso naquele mar verde, não tinha noção pra qual lado era melhor desviar. Nessa situação, o ideal era subir em algum lugar alto. As árvores somos nozes eram baixas e frágeis, apesar disso, juntei umas 3 e fui subindo. Enquanto eu subia, elas envergavam, mas ainda assim consegui ver que realmente não tinha nenhum caminho melhor, tava tudo igual e o jeito era seguir em frente dobrando o mato no braço.

      O tempo era limitado, já que eu ainda deveria voltar até a cargueira e continuar até o Travessão. Mas no ritmo que estava não conseguiria chegar a cachoeira e voltar a tempo. Não tinha levado água, e estava com muita sede, no meio daquele matagal comecei a ouvir o barulho de água, parecia pouco, mas já daria pra matar a sede. Continuei mais um pouco e logo encontrei uma vala profunda com um pequeno filete de água dentro. Descer dentro da vala foi complicado, já que suas laterais eram quase verticais e mediam cerca de dois metros. Após me abastecer com água fresca, segui o caminho de volta, chegando na mochila as 15:30h, que era o horário limite que havia estabelecido. Acredito que se não tivesse ido a Fantasminha, teria tempo suficiente para chegar até a Fantasma, mas ainda assim não achei que foi uma má troca, a Fantasma que me aguarde.

      De volta a margem do rio, fiz um lanche enquanto descansava e logo continuei adiante, pulando pedras. Tive que me deslocar com muito cuidado, pois tudo ali era úmido e cheio de lodo. Além disso, tinha o problema da bota, que estava escorregando demais. No caminho existem algumas pedras grandes, que exige algum esforço para vencê-las. Já bem adiante, o rio desaparece, sendo necessário se embrenhar pelo mato. Depois de algum tempo, chega-se ao Lago da Garganta, que fica onde os paredões se afunilam, deixando a passagem mais estreita. A partir desse ponto é uma questão de gosto, se você prefere um lugar mais plano e com muito mato, vá pela esquerda, se prefere um lugar mais pedregoso e íngreme, vá pela direita. Em ambos os casos, a caminhada fica mais difícil, embora eu tenha preferido ir pela direita.

      Cheguei ao Travessão as 17:15h, ainda era cedo e deu para montar acampamento tranquilamente. Posicionei a barraca o mais próximo possível do canyon, para que eu pudesse ter um belo visual. Depois desci até a cachoeira do Paiolinho, para pegar água e tomar banho em seu belo poço. Já a noite, fiz um miojo e adicionei sardinha ao molho vermelho e batata palha, além do tradicional suco em pó, logo em seguida fui dormir. 

Dia 2: Descendo rumo ao inexplorado.

      O dia seguinte amanheceu com algumas nuvens no canyon. Levantei por volta das 7:30h, tomei café e bati algumas fotos. Não sei o motivo, mas estava com muita preguiça e desânimo, por isso fui fazendo tudo lentamente. Por volta das 9h, finalmente terminei de arrumar a mochila.

Travessão pela manhã.

      Comecei a andar em direção ao poço do Furô, no rio do Peixe. Minha intenção era descer seguindo seu curso, pra ver o que tinha de interessante por ali. Um dos grandes problemas dessa parte era a inclinação da descida, era muito íngreme e parecia um tobogã, o outro era a minha bota, que escorrega igual quiabo. Além disso, estava tão desanimado que pensei até em finalizar a travessia pelo caminho tradicional do Travessão. Mas eu me conheço e sabia que era só preguiça, bastava continuar que animaria novamente.

A missão era chegar ao fim do canyon.

      Fui descendo por aqueles paredões cuidadosamente. Esse trecho foi perigoso, e escorregar significaria descer chiando lajeado a baixo. Não havia necessidade de passar por ali, fui por curiosidade, para explorar cada canto daquele rio. No caminho passei por um pequeno poço, que possuía uma formação rochosa que lembrava um dente de serra, e após o poço, o rio se encaixa numa fenda a esquerda, criando uma pequena cachoeira inclinada. Um pouco mais a frente, o rio se encontra ao enorme paredão e desce até o colo do travessão. Mais uma vez, exige-se muito cuidado para descer, devido aos lajeados inclinados. Nessa parte, passa-se em um belo poço de águas calmas e pedras claras no fundo, o qual reflete a paisagem como um espelho.

Poço dente de serra.
"Cachoeira" inclinada.
Cachoeira espelhada.

      Depois de descer no meio de um monte de pedras soltas e mato, cheguei na mata bem no fundo do canyon. Varei mato e segui descendo pelas pedras.

      Desse ponto não havia mais volta, agora era seguir a diante e torcer pra não chover. Acreditava que em no máximo dois dias eu chegaria até a outra ponta, e dessa forma, dormiria uma noite dentro do canyon, restava saber como, já que ali não tinha lugar nem pra pisar direito. Já estava super animado, e principalmente, determinado. Fui seguindo rio abaixo, do jeito que dava.

    As 12:30h cheguei ao Poço do Andorinhão, com a cachoeira homônima. O poço é enorme, mas diferentemente do que imaginava, não é tão profundo, já que está preenchido com muitas pedras. Continuando, tive que passar em vários trechos com água até cintura, alguns pontos o rio é fundo, e tive que varar mato nas margens. Em um dado ponto, o rio se estreitou, devido a uma pedra vertical a esquerda, e como era muito fundo, tive que passar agarrado em arbustos pela direita.

Cachoeira do Andorinhão.

      Após esse trecho, os paredões das laterais foram diminuindo, e o horizonte se expandindo. O sol ainda reluzia, e enquanto caminha a todo vapor, me deparei com uma cobra, quase pisei nela. Ela estava sobre as pedras, se aquecendo ao sol. Mesmo eu bem próximo, ela não se intimidou, tirei algumas fotos e segui adiante.  


      Na lateral direita, notei um pequeno afluente, ao explorar, encontrei uma modesta cachoeira com um pequeno poço. Sua queda formava um filete esbranquiçado, parecendo o rabo de um “Rabo de Prata” (uma ave de porte médio).

Cachoeira Rabo de Prata.

O salão das gêmeas.

      Alguns minutos a frente, uma fenda no paredão a direita me chamou a atenção, não era muito larga, mas saía um bom volume de água. Tentei entrar, mas era muito fundo e não dava pra ir andando. A curiosidade era grande, e eu tinha que saber o que havia no fim, então tirei a cargueira e as botas e segui nadando por entre as paredes estreitas e sinuosas. Por ser muito estreito, entrava pouca luz e era bem escuro, isso dava um certo “frio na barriga”, principalmente por estar nadando, sem ter como reagir. Mas isso era bobagem, afinal, o que poderia acontecer? Segui por uns 100m, e no fim tive uma grande surpresa, um grande salão com um belo poço, e duas cachoeiras lado a lado, pareciam gêmeas. Foi muito legal, como se tivesse encontrado um tesouro, fiquei realmente impressionado com o lugar. Voltei para buscar a câmera, então improvisei um saco de estanque com sacolas e coloquei debaixo do chapéu. Então fui lá uma vez mais, para tirar as fotos.   

"Corredor".
Cachoeiras Gêmeas.

      Já passava das 17h, e já era hora de começar a procurar um local para acampar. Já tinha saído do canyon, ou seja, o que tinha planejado para dois dias, já tinha terminado em apenas um. Continuei um pouco mais, e então saí do rio pela esquerda, foi aí que encontrei uma trilha, até bem larga. Como cabia a barraca e era plano, montei acampamento ali mesmo. Aproveitei os últimos minutos de luz para dar uma nadada em um dos poções do rio, depois esquentei uma feijoada e comi com batata palha.

Dia 3:  Até Cabeça de Boi pelo emaranhado de bifurcações .

      Depois de uma noite tranqüila as margens do Rio do Peixe, e com a parte mais incerta da travessia completa, bastava apenas chegar a Cabeça de Boi. Tarefa aparentemente simples, no entanto, eu não tinha levado carta topográfica ou qualquer outro tipo de mapa, apenas a bússola. Era tudo que eu precisava para ter um pouco mais de emoção nesse dia.

      Após o tradicional café da manhã com sanduiches e café solúvel, desmontei a barraca e organizei tudo na mochila. Antes de seguir a diante, voltei um pouco pela trilha para ver onde dava, a trilha estava muito fechada e parece que faz muito tempo que ninguém passa por ali.

      Por volta das 9h dei inicio a pernada final. Em poucos minutos de caminhada já tive que cruzar o rio. Do outro lado encontrei uma bifurcação, uma trilha seguia direto, no plano, e a outra subia a serra. Era óbvio que deveria seguir reto, mas... e seu eu subisse, onde será que eu chegaria? Será que tinha algo de interessante por ali? Bem, tenho um problema sério com esse tipo de coisa, não consigo ver uma bifurcação sem me coçar de vontade de segui-la, e muitas vezes eu vou, pelo menos um pouco, pra tentar entender o destino da trilha.

     Como ainda era cedo, resolvi explorar a tal trilha. O início foi promissor, estava bem visível e fácil de seguir. Mas depois de algum tempo subindo, passei por uma pequena floresta de árvores retorcidas, onde a trilha se confundiu com o próprio solo. Fiz algumas investigações e a achei novamente, no entanto, logo à frente a trilha se reduziu a um rastro. Ainda segui até chegar a uma área mais plana, como se fosse um platô, onde desapareceu completamente. Deixei a mochila no chão e dei uma sondada ao redor, mas a trilha não estava tão obvia. Nesse ponto já deu para perceber que a trilha no máximo cruzaria a serra. Dei-me por satisfeito e desci de volta a trilha principal.

Diversidade.

      Não andei muito tempo na trilha e já comecei a ouvir barulho de cachoeira. É claro que não ia ignorar o “chamado”, joguei a mochila na beira da trilha e me embrenhei no mato a procura da fonte sonora. Depois de um vara-mato com arranha-gato, ribanceira e uns formigueiros, cheguei a cachoeira. Tinha uma bela queda, mas fiquei encantado mesmo foi com o poço, com uma grande parte rasa com pedras claras que refletia a luz do sol e dava um efeito visual incrível.

Cachoeira Encantada.

      Depois de aproveitar a cachoeira, voltei pelo mato até a trilha, peguei a mochila e segui adiante. Nó relógio, 11:20h, já havia gasto um bom tempo e tinha me deslocado pouco, não podia fica enrolando já que não conhecia o caminho e não possuía nenhum mapa para me orientar.

      Cruzei o rio do Peixe mais duas vezes, e na segunda, fiz uma parada para lanche. Nesse ponto existe um poção, e um dos mais belos visuais do Travessão. Esse é um fato interessante por se estar a leste do Travessão, mesmo de muito longe se pode vê-lo nitidamente entre os paredões do canyon.

Travessão no centro.

     Ao fim do lanche, passei por um trecho de mata ciliar e cruzei o rio mais uma vez, chegando a uma pequena casa abandonada. A partir da casa, segui uma estradinha precária, que por sua vez deu em uma estrada mais batida, aparentemente a principal. Depois de uns 20mim nessa estrada, surgiu uma encruzilhada com um pequeno trevo, segui a direita pela estrada menos usada, que logo se bifurcou, surgindo uma estrada ainda mais abandonada, a qual tomei. Essa estradinha foi afunilando e acabou se tornando um trilha, finalizando num descampado.

    Passei direto pelo descampado, seguindo ao sul, cheguei mais uma vez ao rio, não vi sinal de trilha do outro lado, então voltei e tentei a leste, enquanto isso, uma manada de bois começou a me seguir, novamente cheguei no rio, já que ele fazia uma curva. A margem do outra lado era pedregosa, e se caso o caminho fosse por aí, só indo lá pra descobrir. Antes de atravessar o rio, queria ter certeza se não existia um caminho evidente, por isso, fui olhar a oeste também, os bois voltaram me seguindo. A oeste, encontrei uma trilha, entrei em um pequeno trecho de mata até chegar no rio (o rio é onipresente, tipo isso), do outro lado, algo que parecia muito uma trilha. Concluí que minhas chances eram maiores se atravesse nesse ponto.

 Sendo perseguido por fãs.

      Do outro lado, a trilha realmente continuava, bem fraca, mas logo cruzava outra, mais batida, segui essa mais batida a esquerda. De repente, comecei a descer e cheguei no... rio? Não, era um outro córrego (mas na hora eu assustei), atravessei o córrego e cheguei em um local com lenha empilhada, e algumas árvores cortadas. Segui a trilha que havia por ali, comecei a subir a serra numa direção duvidosa, e deixei a trilha na primeira bifurcação na direção que eu queria ir. Atravessei um córrego, que ficava numa piramba, e em seguida uma moita de samambaias, chegando num local “místico” que a trilha simplesmente desaparecia. Depois de perder 30mim vasculhando a área a procura da continuação da trilha, decidi voltar.

      Ao lado do córrego, na moita de samambaias, havia uma pequena picada descendo piramba abaixo. No fim da picada, cheguei à base de uma cachoeira, com duas quedas em série, e claro, existia uma trilha até a cachoeira. Tomando essa trilha, acabei em outra cachoeira, agora com duas quedas em paralelo. A trilha continuava, e por volta das 15h cheguei numa outra trilha, mais ampla e que subia a serra a sudeste, na direção que eu queria.

Cachoeira em série.
Cachoeira em paralelo.

      Finalmente o dia estava salvo, bastava seguir aquela trilha e estava tudo certo, só que não... Ao fim da subida, cheguei a um pequeno platô. A trilha sumiu completamente, pois o solo estava completamente recoberto por gramíneas vistosas. Segui em linha reta e achei uma trilha descendo o morro, que desapareceu 10m depois, %&@*%$!*! . Voltei ao platô e fui bordeando até encontrar a continuação da trilha.

      A partir desse ponto foi tranqüilo, desci a serra e cheguei no Lajeado por volta das 16:30h, exatamente onde eu planejei. Esse local é muito visitado por turistas, e havia dezenas de carros estacionados ao lado. Para chegar em cabeça de boi, bastava andar cerca de 6km por estrada de chão. Mas como já era final da tarde, esses carros estavam voltando para Cabeça de Boi, achei melhor pedir uma carona do que andar 6km de estrada comendo poeira.

Atravessando o Lajeado.

      Em Cabeça de Boi, tomei a coca da vitória e fui até a saída da cidade tentar uma carona para Itambé do Mato dentro. O ônibus para BH saía de lá no dia seguinte, as 9h. Eram mais 10km de estrada, como já era tarde, comecei a seguir a pé mesmo. Depois de andar cerca de 50mim, consegui uma carona, chegando em Itambé as 19h.

Cabeça de Boi e serra do Lobo ao fundo.

Antonio Junior